Yoga: convite para uma pausa necessária

Marcus Vinícius Rojo é um professor de yoga “raiz”. Aprendeu com seus pais os benefícios da prática e depois de 12 anos no mundo corporativo, mergulhou de vez em ministrar aulas e cursos.

Procuro despir-me do que aprendi
Procuro esquecer-me do modo de lembrar que me ensinaram,
E raspar a tinta com que me pintaram os sentidos,
Desencaixotar as minhas emoções verdadeiras,
Desembrulhar-me e ser eu…

Alberto Caeiro PESSOA, F. O Guardador de Rebanhos

O poema de Fernando Pessoa é uma das referências de Marcus Vinícius Rojo. É desta forma particular que o co-fundador do Instituto de Ensino e Pesquisas em Yoga e do Espaço Rojo de Yoga vem ministrando suas aulas e transmitindo seus conhecimentos desta prática milenar.

“Meu olhar para o yoga é completamente endereçado para o nosso ambiente interno. Não a partir do racional ou do intelecto, mas sim das nossas sensações. Os nossos cinco sentidos estão sempre voltados para fora e os usamos para interagir com o mundo”, explica. “A prática  da yoga vai desenvolver outras capacidades de percepção que nós temos e não sabemos. O interesse é essencial, pois senão a nossa mente vai ficar nos distraindo o tempo inteiro.”

Marcus é filho de professores de yoga precursores no Brasil que se formaram no Instituto Kaivalyadhama,  principal centro de difusão do yoga com um olhar científico importante para resgatar a credibilidade do yoga no ocidente. Tendo essa proximidade com mestres e a técnica desde cedo, sabia que um dia iria se dedicar somente ao yoga, não sem antes fazer uma longa trajetória pelo mundo corporativo.

Com graduação em Engenharia Química e pós-graduação em Administração de Empresas, trabalhou por mais de 11 anos na Latam passando por diversos cargos e foi diretor de planejamento e RH no Buscapé até 2019.

Começou a dar aulas práticas de Hatha Yoga em 2008. Usava a sexta-feira à noite para essa tarefa, porque desta forma não atrapalhava seu trabalho “formal”. Aos poucos, foi aumentando a grade e deixando amadurecer a ideia. “Demorei 12 anos, pois gostava do trabalho e das vantagens que me oferecia: salário, bônus, férias. Era tudo muito sedutor. Peguei mais aulas, curso de fim de semana. Fui identificando a minha própria linguagem e adquirindo confiança para fazer essa transição”, conta.

Com a chegada da pandemia, o processo acelerou. Havia planejado um ano sabático em 2020 com a ideia de fazer o caminho de Santiago de Compostela. Ao se deparar com o lockdown, mergulhou de cabeça no universo das aulas online e cursos que mantém ainda hoje.

Aliás, acredita que a flexibilização do horário de trabalho que se impôs com a crise sanitária e da junção dos meios físicos e digitais são facilitadores para se agendar uma atividade física, inclusive no meio dia e, ainda se quiser, sem se deslocar para uma academia, usando o recurso do vídeo para o treinamento.  

“O que vale é romper o automatismo e produzir pausas tão necessárias. Se entrarmos em uma prática como em outra atividade, vamos ter benefícios de qualquer maneira. Mas se fizermos de maneira consciente como um momento de interrupção vamos começar a ter outra perspectiva. É uma contribuição valiosa que não conseguimos nem quantificar para nossa saúde e qualidade de vida”, ensina.

Empresas – Muitas empresas já começam a perceber a necessidade de cuidar da saúde mental de seus colaboradores com um interesse genuíno, desdobrando este conceito em sua própria cultura e estrutura hierárquica.

Na Espanha, segundo o Observatório de Recursos Humanos, 64% das 102 empresas certificadas como Maiores Empregadores possuem iniciativas como oficinas de formação em mindfulness, espaços de silêncio à meditação e a prática da alimentação consciente. No leque de atividades oferecidas, as aulas de ioga correspondem a 55% e os programas de desenvolvimento pessoal e autoconsciência 52%.

Essas ações auxiliam na melhora na autoestima das pessoas, diminuem o estresse e, consequentemente, as faltas por motivo de doença aumentam a motivação e a qualidade de vida e servem como atração e retenção de talentos.

Na opinião de Rojo, para que realmente estes programas funcionem, é necessário o envolvimento de todos, não só da liderança. “Já vi empresas que oferecem atividades muito interessantes e ninguém se engaja porque não vê benefícios. Há, também, oscilações. Começam todos animados e vai esvaziando. Percebo que à medida que a prática do yoga, meditação, mindfulness vão ficando mais populares, os colaboradores acabam pedindo e vão sendo atendidos. O mindfullness possui um protocolo para falar com o mundo corporativo. O Yoga vinha com uma linguagem mística que não cabia na empresa. Causava um choque. Hoje, é bastante mais acessível tanto por parte de quem transmite, como por parte de quem recebe.”

Conceito – A Yoga une dois mundos: físico e mental e se tornou uma grande aliada no combate à depressão, ansiedade e burnout. É um estado da mente, um estado meditativo inerente ao ser humano e em profunda relação com o corpo a ponto de poder ser atingido por meio de exercícios em que mente e corpo interagem.

“Fomos perdendo a nossa natureza humana. Começamos a ver as coisas de um jeito muito separado. Tivemos esta cisão da integração com a natureza. Desenvolvemos uma capacidade da nossa mente de se descolar desse tempo natural”, salienta o professor. “Nossa mente tem um tempo muito veloz que não podemos acompanhar.  Viver no tempo da mente desrespeita o nosso DNA, a nossa estrutura psíquica e nos adoece. E na medicina também é assim. Toma um remédio e pronto. Temos de achar alternativas para quebrar esse ciclo.”

A yoga nasceu de um conto cheio de simbolismo e foi difundida com posturas difíceis, inalcançáveis e até acrobáticas. Na sua essência, se voltar para um estado de presença sem os estímulos internos e sem a mente nos dominar é mais difícil do que fazer os movimentos com o corpo. “O lado bom é ir percebendo os benefícios na medida em que vamos praticando, respeitando as individualidades. O que diferencia a yoga da ginástica, do alongamento, é justamente a nossa capacidade de desenvolver o vínculo. A própria palavra yoga significa união”, conta.

Ele compara o início da prática com um regime. Não é  fazendo dieta que se emagrece, e sim, com uma profunda reeducação alimentar. Uma vez que se começa a gostar e ver os benefícios, vem junto a vontade de praticar. “Não sabemos muito bem onde vai dar. Sem impor nada, sem forçar, vamos produzindo mudanças de comportamento, de postura corporal, de atitudes”, salienta.

Aprenda mais sobre os benefícios do yoga no episódio 50 do podcast “Somos Newa” com o título “A desconexão entre a mente e o corpo”

Marcus Vinícius Rojo é co-fundador do Instituto de Ensino e Pesquisas em Yoga e do Espaço Rojo de Yoga e ministra aulas práticas de Hatha Yoga desde 2008, se especializando nas técnicas tradicionais e na forma de transmiti-las no que chama de “yoga raiz”. É filho de professores de yoga precursores no Brasil e nessa trajetória teve o privilégio de conviver desde cedo com professores inspiradores.

Com graduação em Engenharia Química e pós-graduação em Administração de Empresas, atuando também no ambiente corporativo, trabalhou por mais de 11 anos na Latam passando por diversos cargos e foi diretor de planejamento e RH no Buscapé até 2019.