7 verdades sobre empatia

O que é empatia? É possível ser empático o tempo todo? Como regular os nossos sentimentos? As respostas estão no livro “Eu Controlo Como Me Sinto” de Claudia Feitosa-Santana, mestre em Psicologia Experimental e doutora em Neurociência e Comportamento pela USP que nos ajuda a entender.

Apesar da palavra empatia ter entrado de vez no vocabulário das pessoas, ela precisa ser melhor compreendida. Neste artigo, fomos entender com Claudia o que realmente significa empatia e como desenvolver essa competência nas relações humanas.

A empatia cognitiva é como se fosse a heroína dos nossos relacionamentos. Para se aproximar cada vez mais das pessoas precisamos investir nela e nem sempre temos este tempo e paciência. A nossa sociedade pede muito esta postura de auto-regulação. Ela é benéfica para todo mundo. Ao adquirir conhecimento sobre como sua mente funciona, temos mais chances de regular nossas emoções e ser protagonista da nossa própria história – sem conformismo, nem procrastinação. Este é o tema do livro “Eu Controlo Como Me Sinto” de Claudia Feitosa-Santana, mestre em Psicologia Experimental e doutora em Neurociência e Comportamento pela USP.

Nesta verdadeira jornada pela mente humana, a autora ensina as pessoas a se entenderem melhor, conhecerem a mente e suas atitudes, aprenderem a lidar com as outras pessoas, tomar boas decisões e construir uma vida feliz – um passo de cada vez.

1) O que é empatia?

Tratamos a empatia como um processo no qual as pessoas devem dedicar tempo e atenção. Há algumas delas, que nascem com este sentimento sendo considerado natural. É o que chamamos de empatia contagiosa. Na grande maioria dos casos, é um exercício e nosso cérebro não tem glicose para isso. No livro, falo sobre a empatia cognitiva. Ter uma dedicação para adquirir uma informação externa e aumentar a sua compreensão e conhecimento sobre algo novo.

A empatia cognitiva é como se fosse a heroína dos nossos relacionamentos. Para se aproximar cada vez mais das pessoas precisamos investir nela. O problema é vender a empatia como solução para a nossa sociedade. Pois, isso implica em dizer que você tem esse tempo para fazer esse exercício com todo mundo.

2) É possível ser empático o tempo todo e com todo mundo?

O que precisamos entender é que para termos uma sociedade melhor, necessitamos que empatize para fazer a coisa certa. Fazer a coisa certa é uma postura moral.
No fundo, quando a gente mergulha na literatura científica, percebemos que a nossa moral é que na verdade vai indicar onde e com quem vou empatizar ou não. Isto traz um dilema bem grande porque quando empatizo com uma pessoa ou uma causa, automaticamente vou rejeitar tudo o que representa o oposto dessa pessoa ou desta causa.

A empatia tem sido vendida como a solução para todos os problemas. Isto é real?

A empatia não pode ser vista como uma solução para tudo. Em primeiro lugar, precisamos respeitar o direito do outro de pensar ou de fazer diferente. Cabe às estruturas e políticas públicas agirem de uma forma mais enfática. Como cientista, sou totalmente a favor da vacina e se o governo não exige e uma pessoa não quer tomar, vou ter que respeitar essa postura. Não tem jeito. É a única saída.

Mesmo aqueles que querem tentar empatizar com uma pessoa que tem uma postura oposta, na maioria das vezes, o que essas pessoas estão fazendo é escutando o argumento do outro e buscando formas de convencê-lo a se aproximar do lado dela.
Explico no livro que nosso raciocínio, é a priori, feito para que a gente convença o outro para fazer o que a gente quer. Por isso que vemos todos esses problemas.

O primeiro passo é respeitar que o meu direito não é maior do que o do outro. Não vale nem mais e nem menos que ninguém. Para fazer uma negociação do famoso ganha-ganha que para todos ficarem satisfeitos, precisa ter um meio termo.

3) Qual o principal desafio para o exercício da empatia?

Quando falo que empatia cognitiva é sinônimo de escuta eu me refiro a uma escuta verdadeira. Não realmente escutar por escutar e já querer argumentar, convencer. É sair do automático, prestar atenção para entender a visão do outro. A maioria das vezes, as pessoas próximas discutem, mas estão falando a mesma coisa com palavras diferentes e ainda dando significados diferentes para a mesma palavra. Vira mesmo uma confusão.

Se a gente tivesse na mão um glossário, com certeza, discutiremos menos. Pois hoje, falamos de esquerda, direita, mas se realmente a gente conversar sobre educação e saúde, por exemplo, ambos devem acreditar no sistema público de educação e no SUS. Se pudéssemos clarificar ao máximo o significado das palavras, facilitaria muito esta postura de um ato verdadeiro empático.

Só que nós somos muito orgulhosos. É difícil para a gente falar desculpe, pois é admitir que vou sair do meu ponto de vista para incorporar o ponto de vista alheio. Por isso é importante olhar para a ciência, estímulos externos, visões diferentes para se desapegar ao que pensamos como certo e aceitar essa diversidade.

4) Como o conceito de glicose cerebral ajuda na auto empatia?

A glicose é a fonte primária para alimentar o cérebro que vem do metabolismo de tudo o que você come. Quando falamos de energia cerebral não é nada esotérico e sim do combustível que ele precisa para funcionar.

Você tem alimentos que vão te dar mais ou menos energia, de forma instantânea ou prolongada que vão de chocolate até os produtos integrais. Temos de juntar a isto boas noites de sono, atividades físicas. Tudo isso ajuda no processo de auto empatia. Eu tenho consciência de que se estiver cansado, com fome, com sono, as minhas condições, ou seja, meu combustível para o poder escutar estará mais reduzido. E o contrário também é verdadeiro: quanto melhor você estiver, quanto mais combustível tem – neste caso
mais glicose no cérebro – mais fácil será prestar atenção no outro.

Por isso é muito importante o autoconhecimento para este processo de auto empatia. Para ter consciência e aceitar que muitas vezes você não vai empatizar, por exemplo, com 3 funcionários ao mesmo tempo. Que não é possível ter foco com dois filhos juntos. Então, prestar atenção como você e seu corpo funciona, se está melhor neste dia para tratar de certos assuntos ou deixar para lá. Quanto mais me conheço, mais consigo ter controle e, com isso, evito me colocar em situações de descontrole.

5) Como regular nossos sentimentos?

A nossa sociedade pede muito esta postura de controle. Ela é benéfica para todo mundo.
Controlar como me sinto significa ter uma capacidade muito melhor de lidar com sentimentos. E entramos aqui em outra questão que é o sentimento. Algo que existe apenas dentro da nossa mente. Se existe apenas dentro dela, tenho a maleabilidade de escolher mais beneficamente como eu sinto, porque sempre tem uma cartela de opções.
O problema é que, normalmente, a gente não enxerga essa cartela. O nosso cérebro faz uma aposta baseada no contexto e na história e já joga um sentimento. Você pode aceitar ou não. Quando a gente começa a incorporar essas questões ,de como a nossa mente funciona, fica mais fácil e ganhamos mais ferramentas para aprimorar o nosso comportamento e compreensão dos nossos sentimentos.

6) Qual a importância da diversidade no processo empático?

Quanto mais diversidade a gente tem, melhores são as chances da gente ter resultados. Uma coisa interessante da nossa mente é que ela presta mais atenção nos dois pólos extremos. Mas quando você vai olhar os dados estatísticos de quem realmente polariza é uma minoria. A grande maioria não está nos pólos extremos. Ou seja, a gente precisa mudar essa discussão. Na verdade, a maioria que é mais diversa está mais entre os dois pólos.

Saiba mais no episódio 36 do podcast “Somos Newa”: Empatia tem limites?


Claudia Feitosa-Santana. Graduada em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade de São Paulo (USP) e Engenharia Civil pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, é mestre em Psicologia Experimental e doutora em Neurociência e Comportamento pela USP.  Possui pós-doutorado em Neurociências Integradas pela Universidade de Chicago e estuda há mais de 20 anos alguns aspectos da mente e do cérebro, da percepção às decisões.