Quero tornar a mulher negra um commodity raríssimo

A sigla ESG  significa “Ambiental, Social e Governança”. Trata-se da incorporação de políticas mais inclusivas e conscientes dentro de grandes empresas. Cada vez mais jovens têm buscado investir em empresas que possuem políticas sólidas de diversidade, inclusão e respeito aos direitos humanos. 

 

Essa tendência pressiona empresas a se adequarem à nova realidade que está sendo construída. Em alguns casos, provocam até a mudança de conceitos ultrapassados e antiquados.

 

Caminhar na direção de uma sociedade mais igualitária e justa, passa por ações reparadoras, redes de apoios e muito investimento em educação.  

 

Apesar de ainda ser dominado majoritariamente por homens, as mulheres vêm tendo expressivo crescimento no mundo dos investimentos, seja por investimentos via pessoa física e, também como profissionais da área, não só em corretoras e bancos, mas em instituições importantes como bancos centrais e secretarias do tesouro de muitos países, influenciando as decisões e o comportamento dos mercados.

 

Não foi à toa que em setembro de 2020, a Brasilprev, anunciou Laiz Carvalho como sua economista-chefe. 

 

Bacharel e mestre em Economia Aplicada pela USP, assumiu um papel estratégico na análise de cenários e execução de projetos de pesquisa, além de projeções para as principais variáveis da economia. Antes de integrar o time Brasilprev, fez parte de grandes conglomerados financeiros como Santander, BTG Pactual, Goldman Sachs e Credit Agricole.

 

Resumimos aqui alguns pensamentos e opiniões desta jovem e negra economista:

 

Motivação para adoção de práticas de ESG

 

As políticas de ESG são um caminho sem volta. Comparo ao movimento dos anos 90 de compliance a fim de estabelecer regras dentro do ambiente corporativo para proteger dados, pessoas e comportamentos. Agora, está chegando a vez da ESG que já é forte no exterior e está chegando no Brasil. Vejo com bons olhos, pois é uma forma de mudar o mercado de trabalho e a forma de fazer negócios voltados aos valores de sustentabilidade, diversidade e de impacto social.

 

Além da demanda interna, há uma externa que são os jovens. A geração mais jovem não quer nem trabalhar e nem investir em empresas que não contribuam para uma mudança efetiva do mundo em que vivemos.

 

A tecnologia tem proporcionado a criação de fintechs e outros negócios que são criados por jovens que não encontram nas empresas um propósito e acabam criando seus próprios negócios atendendo as suas próprias demandas. Por isso, não adianta apenas as companhias falarem que não fazem  distinção entre gêneros, raças ou idade, por exemplo. Elas tem que mostrar na prática que atuam em prol a diversidade e justiça social.

 

Meritocracia, mentoria e redes de apoio

 

Eu estudei em uma escola particular de um bairro periférico da zona leste de São Paulo, Itaquera. Meus pais acreditavam e investiram na minha educação e da minha irmã como ferramenta de transformação. No ensino médio, mudei para um CEFET – Centro Federal de Educação Tecnológica e, com isso, consegui vislumbrar a possibilidade de estudar em uma universidade pública. Entrei em economia na USP . Aí comecei a perceber que não bastava só a meritocracia. Já tinha um desafio físico de ficar duas horas dentro de um transporte público, fora as diferenças de formação, por exemplo, em relação ao inglês. Só pude ir adiante pois tive suporte de amigos, professores e o apoio da minha família.

 

Percebi a importância da mentoria. Ficava procurando sempre quem podia me ajudar, me ensinar e colava naquela pessoa. Contei com ajuda de muita gente, sem dar nada em troca. Por isso, hoje, faço questão de retribuir participando de programas de aceleração e de grupos de mulheres negras para que um possa dar mão às outras e contribuir para a inclusão de mais pessoas.

 

Sonhos e futuro 

 

Não tenho ambição de cargos. Já estou em um bem alto. Mas quero participar de conselhos de administração para mudar as políticas de diversidades de empresas de cima para baixo. Fazer uma transformação de dentro para fora. Quero muito fazer a diferença na vida das pessoas. A mentoria é uma das ferramentas. Meu objetivo é criar um grupo de mulheres pretas que seja referência no mercado financeiro. Começar dando bolsas, arrumando empregos, ensinando educação financeira a ponto de se tornar em um commodities raríssimo. Ter os melhores profissionais e mais bem pagos do mercado.

 

Ações reparadoras e história

 

As ações reparadoras feitas por empresas como o programa de trainee da Magazine Luiza são ainda necessárias para atingirmos a igualdade, já que 56% da população brasileira é preta ou parda e não se vê o mesmo percentual nas empresas. Funciona como o sistema de cotas das universidades.

 

Porém, temos de dar um passo atrás e fazer as pazes com a nossa história. Ainda aprendemos que os portugueses tiveram que domesticar a população indígena pois era preguiçosa. Exploramos o negro por mais de 300 anos e acreditamos na bondade de uma princesa que libertou os escravos. Essas populações continuam marginalizadas. Temos que admitir que isto faz parte de um momento ruim que tivemos e, agora, temos ferramentas para fazer esta história mudar. Se não tenho como fazer no Brasil todo, que seja na minha empresa como aulas sobre diversidade, racismo, formas de linguagens, orientações sexuais. As empresas devem entender a importância de ter programas de reparação e de educação. Uma das formas mais baratas é criar grupos de afinidades para abrir um canal de conversa e de denúncia. Não custa nada e faz com que todos que queiram realmente mudar o cenário se engajem nesta luta.


Quer saber mais? Escute o episódio com Laiz Carvalho do podcast Somos Newa.