Quatro aprendizados sobre a cultura indígena

A violência contra a mulher está cada dia mais severa. A cada dois minutos uma mulher é agredida no Brasil, segundo o Monitor de Violência Doméstica e Familiar Contra a Mulher, no período de isolamento social, do Instituto de Segurança Pública. Só em 2020 foram mais de 120 mil casos de lesão corporal decorrentes de agressão doméstica, o que reforça que o problema se agravou com o isolamento social. Ficar de braços cruzados quando se tem conhecimento de uma situação de violência com qualquer mulher que conhecemos não é e nem nunca foi uma atitude aceitável. 

 

E foi através da música que a jovem indígena Ana Lúcia Anarandá jogou luz a este tema.

 

A rapper vive em Dourados, no estado do Mato Grosso do Sul. Ela  é uma artista que transita entre as duas culturas e usa a música para falar sobre a sua identidade, as questões que enfrenta como mulher e para contar as histórias das guarani-kaiowá na sua língua materna.

 

Seu nome indígena é Randa Kunã Poty Rory que quer dizer “mulher flor brilhante, carismática e comunicadora”.  Ao deixar a terra natal Amabai, o avô lhe disse que Tupã Nãnderu, Deus, a havia designado para divulgar a cultura dos guarani-kaiowá para o mundo. Levando a sério a missão, tem usado a música como instrumento de disseminação além da própria academia. 

 

É professora de tupi-guarani e diversidades culturais no Núcleo de Assuntos Indígenas Jaguapiru da Universidade Federal da Grande Dourado e lá faz também o curso de gestão ambiental. Veja quatro lições que podemos aprender com ela e conhecer mais sobre a cultura indígena.

 

  • Os indígenas são amigos leais 

 

Anarandá fez amizade com não indígenas na adolescência, por meio de um programa de estudo que foi levado à sua aldeia.  Com este contato que aprendeu a falar português. Na maioria das vezes, essa dificuldade vem em decorrência da falta de informação, da falta de conhecimento. “Eu sou muito curiosa e percebi só o diálogo que resolve e transforma duas pessoas de origem diferentes em uma amizade muito bonita. Se alguém quer nos adotar como amigos, garanto que somos muito leais e fiéis”.

 

  • Como é ser uma indígena no Século XXI

“Nós, mulheres indígenas guarani-kaiowá, somos mulheres muito caladas…Muitas vezes somos invisíveis, seja ela na Universidade, nos palcos, na arte a gente não é representada, outras pessoas não pegam nossa mão para que possam dar visibilidade pra gente. Então, pra mim, ser mulher indígena guarani-kaiowá é você ter que lutar muito, muito pelo seu sonho, não desistir daquilo que você quer para a sua vida, e daquilo que você sonha em alcançar. “

 

  • Os não indígenas não conhecem a história por trás da ritualidade.

“O primeiro erro dos não brancos é usar o termo índio. Esta palavra já carrega o preconceito e vem a mente da pessoa adjetivos como preguiçoso, vagabundo, que só vive a custa do governo, que não trabalha e mora em confinamento na aldeia, deitado na rede, andando nu…Além disso, sofremos a discrminação por causa da religião por parte da nossa crença, de acreditar na Mãe Terra. A gente acredita na espiritualidade e na ancestralidade. A gente cultua, por exemplo, a árvore. Não sabem a história por trás da ritualidade. Nem buscam aprender”.

 

  • Os indígenas são a nossa história.

Segundo a Anarandá, a maioria de nós, não indígenas, não se interessa em ouvir, estudar a história do indígena, que é o nosso ancestral. E isso gera um abismo entre a cultura deles e a nossa. “Muitas vezes eles cegam o olho e tampam o ouvido. Isso que nos torna invisíveis.. A nossa história veio de um país que, se a gente for olhar, não só escravocrata mas…o genocídio dos povos indígenas e a nossa história são vocês… Então, que a gente possa, realmente, honrar nossa ancestralidade que veio da cultura indígena.”

 

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 Foto de destaque: © Marcelo Camargo