Eu quero ser aliada das pessoas brancas

Para a diretora de criação da agência Publicis, Deh Bastos, as pessoas brancas devem mergulhar profundamente na luta antirracista pois foram elas que criaram e perpetuaram o preconceito. Por outro lado, ela segue levantando a sua voz para que as próximas gerações sofram menos do que a dela.

Deh Bastos gosta de se apresentar como mulher, preta, gorda e mãe. A partir da sua história, do espaço que ocupa e da visibilidade que conquistou, busca gerar consciência nas pessoas sobre o racismo e contribuir para que seu filho e as futuras gerações possam viver uma realidade menos sofrida.

Diz estar cansada, ao mesmo tempo que afirma que vai continuar lutando pois é 

uma esperançosa compulsiva e tem visto muita gente trabalhando para uma efetiva transformação social. Evita a palavra aliado porque a associa a alguém que ajuda “Nós não precisamos de ajuda. Precisamos que as pessoas brancas se responsabilizem em combater o racismo que criaram. Eu quero ser aliada das pessoas brancas, não o contrário”, enfatiza.

A diretora de criação sabe que a violência estrutural racista precisa acabar. Por isso mantêm o perfil no Instagram @CriandoCriançasPretas, uma rede de famílias, a fim de tornar a educação consciente da necessidade do combate ao racismo e da ampliação da justiça racial.

Quando seu filho nasceu, tomou a decisão de que não podia deixá-lo passar pelas violências que a afetaram e afetam a saúde mental da população negra. Sabe que não verá o resultado desta luta imediatamente, mas acredita que irá reverberar nas próximas gerações. 

No mundo corporativo, ainda estamos engatinhando para a adoção de políticas afirmativas. A agência que trabalha, a Publicis Brasil, anunciou o “Entre”, um programa para capacitar, desenvolver e incluir nas agências as profissionais mulheres que pretendem atuar na área criativa e vai contar com 85% das 30 vagas destinadas exclusivamente às pessoas que se identifiquem pelo gênero feminino que se autodeclaram negras. 

“É um programa com intencionalidade. Sabemos que não é fácil. Mas estamos fazendo o melhor para preparar este ambiente. Não tem antirracismo sem investimento”, afirma Deh.

Ela já trabalhou como produtora de conteúdo criativo para grandes marcas, além de conquistar o prêmio Monet na categoria melhor programa feminino com a equipe de produção do programa “Boas-Vindas”, do canal GNT.  Dá aulas de criatividade no MBA da FIAP e no mestrado do Instituto de Ciências Ecológicas IPÊ, além de colunista da Revista Crescer e coautora do livro Maternidades Plurais publicado pela Companhia das Letras.

Acompanhe abaixo suas opiniões sobre maternidade, trabalho, privilégios, racismo, diversidade e mudanças efetivas.

Uma criança preta será atravessada por muitas camadas de dor

O #criandocriançaspretas sou eu. As pessoas acham que é sobre filhos e o meu em particular. Mas é sobre todas as crianças que foram e são feridas pelo racismo. Ao longo da vida se percebe o quanto essas violências afetaram a nossa saúde mental. O perfil é uma iniciativa para acolher essa dor e não reproduzi-la em nossas crianças. Uma criança preta, ontem, hoje e, provavelmente, amanhã , infelizmente, será atravessada por  muitas camadas de dor. Sou uma mulher que busca o letramento racial. Sei que ainda falta muito para estudar. Mas já entendo como alguns mecanismos funcionam. Ainda assim, quando sou exposta a uma situação de racismo, tenho mistura de dor e de raiva que faz com que, fique, muitas vezes, congelada. Se acontece comigo, imagina para uma criança.

Privilégio só é uma coisa ruim para quem não tem

Não é sobre as crianças, é só sobre os adultos. As crianças não nascem racistas. 

Elas aprendem muito cedo por reprodução, espelhamento ou observação.

Eu gostaria de dizer que um livro ou uma boneca preta poderia resolver a questão. Mas não resolve. Funciona se houver pessoas negras como referências intelectuais, como amigos próximos, como seu advogado ou médico. As crianças antirracistas são criadas por adultos antirracistas e para ser antirracista é preciso agir, abrir mão de privilégios. Privilégio só é uma coisa ruim para quem não tem. Por isso esta conta é tão difícil. Acho muito louca essa história de separar vida profissional da pessoal. A vida é uma só. As políticas de diversidade e inclusão são extremamente superficiais tanto quanto a gente trata a educação antirracista dentro de casa.

Pluralidade é recurso

Pluralidade para mim é um passo depois da diversidade. Pluralidade é recurso. Trabalho com criatividade, publicidade e comunicação. Quanto mais plural for as pessoas, corpos, pensamentos, menos risco de erro tenho. Se ficarmos dentro da nossa bolha, não alcançamos outro pensar. No final das contas, DE&I é sobre business, não sobre caridade ou assistencialismo. Não existe inovação sem diversidade. Não há como dar um passo à frente sem considerar diversos olhares. Geralmente, estamos falando sobre o ponto de vista de corpos brancos, hetero, cis. Este é o padrão universal. Este tipo de pessoa não precisa ver muito além disso porque o mundo é feito para ela e sobre ela. O diverso é o outro. Me incomoda a palavra diversidade. Sou uma mulher preta. Se eu estiver à frente de outra mulher preta, certamente, seremos diversas. Nós somos plurais entre nós. 

A consciência é um caminho sem volta

É diferente este autocentramento rodeado de um privilégio absoluto. O racismo estrutural é uma engrenagem que está intocável. Toda a mobilização em torno do George Floyd é muito triste ter acontecido depois da morte de mais um corpo preto. Devemos considerar que o fato aconteceu nos Estados Unidos que tem um cenário de racismo completamente diferente do que acontece no Brasil. O movimento negro brasileiro é muito forte e resistente. Tem nomes importantíssimos na nossa luta antirracista como Abdias do Nascimento, Lélia González que estão levantando essas questões com recortes brasileiros há muitos anos e não são considerados. Acredito que seja resultado da superficialidade com que tratamos essas questões. A consciência é um caminho sem volta. Depois que você entende como se arquitetou o racismo brasileiro não há como ignorar. Enquanto se vê de forma superficial, as atitudes também são superficiais. Se não entender os projetos higienistas do Brasil, o apagamento da história da população negra, as políticas afirmativas, tudo fica superficial. O que é superficial o vento leva.

Não tem antirracismo sem investimento

Algumas empresas estão considerando, de forma muito responsável, políticas afirmativas que são vagas com intencionalidade para que se tenha times cada vez mais diversos. É muito importante estruturar, preparar o ambiente e as pessoas para este movimento. Não é só abrir uma vaga e pronto. A Publicis tem o programa “Entre” que vai além dos skills técnicos. É de fato um convite para que tenhamos mais mulheres pretas, periféricas, em um lugar que, historicamente, somos pouquíssimas.  É um programa com intencionalidade. Sabemos que não é fácil. Mas estamos fazendo o melhor para preparar este ambiente. Não tem antirracismo sem investimento. 

Devemos pensar em contratar grupos minorizados para cargos de liderança. Muita gente fala sobre a falta de capacidade técnica de algumas pessoas que vêm destes universos diversos. Na verdade, não é uma falta de capacidade, é só um saber que não é padrão de quem está no poder. Tecnicamente, não é menor, e sim diferente. É de coisas diferentes que se faz as genialidades. 

O que acontece comigo não acontecerá com quem vem depois de mim 

Na minha infância eu queria ser igual à Joana D’arc. Fazer parte da história. Aos 30 anos, me dei conta que faço parte deste movimento que é mais bonito no Linkedin do que na vida real.  Na vida real, você está no front, lidando com situações novas. 

Entendo que muitas vieram antes de mim desbravando caminhos. Sei quanto ser desbravador é doloroso. Tenho de lidar com falas, comportamentos, sutilezas extremamente cruéis no meu dia-a-dia. Mas não estou sozinha. Há homens e mulheres negras e brancas que estão tomando para si também a responsabilidade da mudança. Tem muita dor, mas tem também o entendimento de que o que acontece comigo não acontecerá com quem vem depois de mim.

Micro mudanças para macros revoluções 

Quando meu filho nasceu, eu renasci como mulher preta. Decidi que não podia deixar meu filho passar o mesmo que passei. Sou uma mulher preta, gorda e mãe. Gosto de falar sobre essas intersecções pois não é sobre mim. É sobre todas as outras mulheres pretas, gordas e mães. Se não usar o mínimo de espaço que tenho de visibilidade para falar sobre elas, não faz sentido. Falo com muita tranquilidade que não vou ver as mudanças sobre as quais estou trabalhando. O resultado desta luta não é imediato. O que faço agora vai reverberar nas próximas gerações. Engulo buchas que as meninas pretas não terão que engolir. Da mesma forma, estou aqui porque lá atrás teve mulheres que abriram este caminho. Eu continuo fazendo parte desta transformação com pequenos gestos. Micro mudanças para macros revoluções. 

Eu quero ser aliada das pessoas brancas, não o contrário

Não gosto da palavra aliado porque me lembra alguém que ajuda. Nós não precisamos de ajuda. Precisamos que as pessoas brancas se responsabilizem em combater o racismo que criaram. Eu quero ser aliada das pessoas brancas, não o contrário. Estamos cansadas. As pessoas brancas precisam ir mais a fundo. Por exemplo, quando um CEO coloca uma pessoa preta numa posição de liderança sabendo que pode ser ruim para sua equipe, o mercado e, mesmo assim, ele banca… é este tipo de atitude que precisamos.

A  esperança é o pilar do mundo

Quando falo da espuma da diversidade me remeto ao mar. Se ele está muito agitado cria as ondas na superfície por conta do atrito. Se desce um pouquinho, está tudo muito mais calmo, mais estável. Meu convite é para mergulhar. Não ficar com a cabeça para fora tentando respirar. É ir lá no fundo e mexer na areia, provocar um maremoto. Vai doer, ser difícil, dar treta.  Mas é a única forma. Ao mexer em uma peça na engrenagem que para de funcionar, todo sistema buga e aí não tem volta. Por favor, líderes, mexam-se.

Tem um provérbio africano muito importante que lembro  todos os dias quando acordo: a esperança é o pilar do mundo. Por isso vou continuar lutando. Tem muita gente querendo fazer coisa boa no mundo. Sou uma esperançosa compulsiva. Fácil não será, mas vai acontecer.

Quer saber mais sobre este tema? Ouça o episódio “Você coloca intencionalidade em suas ações?” do podcast Somos Newa.

Deh Bastos é diretora de criação da agência Publicis, mantém o perfil no Instagram @CriandoCriançasPretas, uma rede de famílias a fim de tornar a educação consciente da necessidade do combate ao racismo e da ampliação da justiça racial. Já trabalhou como produtora de conteúdo criativo para grandes marcas, além de conquistar o prêmio Monet na categoria melhor programa feminino com a equipe de produção do programa “Boas-Vindas”, do canal GNT.  Dá aulas de criatividade no MBA da FIAP e no mestrado do Instituto de Ciências Ecológicas IPÊ, além de colunista da Revista Crescer e coautora do livro Maternidades Plurais publicado pela Companhia das Letras.