Diversidade não pode ser perfumaria

De acordo com Adriana Barbosa, idealizadora da Feira Preta, inclusão, diversidade, empoderamento e representatividade são palavras importantes que devem ser conhecidas a fundo

Há dois anos, o cartunista Maurício de Souza, lançou a personagem Milena. A nova personagem que estreou no livro “A Nova Amiguinha” é negra com cabelos black power e foi inspirada em Adriana Barbosa, idealizadora da Feira Preta.

“Quando a minha filha viu quase não acreditou. Fiquei muito emocionada com a homenagem”, comenta a empreendedora que comanda o Afrohub, workshop de redes sociais para negócios e o Afrolab, programa de formação de microempreendedores de várias partes do País.

Formada em Gestão de Eventos pela Anhembi Morumbi e com pós-graduação em Gestão Cultural na USP, em 2017, foi premiada em Nova York e entrou para a lista dos 51 negros com menos de 40 anos mais influentes do mundo, pelo Most Influential People of African Descent, o MIPAD. Além dela, só outros dois brasileiros fazem parte desta nomeação: Lázaro Ramos e Taís Araújo.

Adriana não gosta muito de usar o termo diversidade. “Acho que já virou meio perfumaria. Inclusão, diversidade, empoderamento, representatividade são palavras importantes. O que me pergunto é se indo mais a fundo a gente entendeu mesmo estas questões”.

Mesmo olhando sempre por uma perspectiva de copo cheio, aponta que a mulher negra está na base da pirâmide, apesar de estar batendo em nível de escolaridade com os homens negros, no mercado de trabalho têm mais processos de inclusão e domina o empreendedorismo negro, ainda há muito que avançar.

Das conquistas até agora, levando em conta 300 anos de escravidão e só 134 anos posteriores da Abolição, ressalta duas que ajudaram na transformação e no entendimento da luta racial.  A primeira é sobre a questão da educação: a história brasileira sempre foi contada por pessoas brancas e não sob o ponto de vista dos povos escravizados. 

Recentemente, as mulheres negras têm se apropriado da escrita, da literatura, para recontar essa história em primeira pessoa. Cita como exemplos as escritoras Conceição Evaristo, Sueli Carneiro, Cida Bento e Djamila Ribeiro cujos livros endossaram os processos de fortalecimento da identidade das mulheres negras.

A segunda é o empreendedorismo das mulheres negras que vem desde os tempos do Brasil Colônia, passando pela escravidão e abolição. “No contexto da pandemia, quem salvou o emprego desta camada da população foram as próprias mulheres negras. Elas são maioria entre as microempreendedoras individuais e contratam outras mulheres negras para trabalhar”, afirma a gestora.

De acordo com a pesquisa “O Impacto da pandemia de Coronavírus nos Pequenos Negócios”, do SEBRAE, 72% de mulheres negras afirmaram ser Microempreendedora Individual (MEI).  A porcentagem de mulheres brancas com este enquadramento é de 55%. O estudo mostra ainda que somente 35% das mulheres brancas empreendem por necessidade, enquanto esse caso é a regra para 51% das mulheres negras. 

Livro – A sua trajetória como empreendedora está contada no livro lançado, recentemente, pela HarperCollins, “Preta Potência – Como a resistência e a ancestralidade me ajudaram a criar o maior evento de cultura negra da América Latina”.

Com a colaboração de Ana Lúcia Silva Souza, relembra com foi criar, quebrar e reinventar a Feira Preta, plataforma responsável por idealizar projetos para valorizar nossa cultura e realizar anualmente o maior evento de empreendedorismo negro da América Latina.

“É um processo coletivo de quatro mulheres negras de quatro gerações que é a minha família, de raiz matriarcal. Não falo sobre a Feira Preta, mas sobre o movimento negro, sobre potências negras que ajudaram a construir a história que faz com que a gente pense hoje na perspectiva de passado, presente e futuro”, ressalta a autora.  

Além do panorama histórico, relembra o episódio mais emblemático: depois de 15 anos de sucesso, a Feira Preta faliu.  Em 2017, ao se tornar uma mega-feira e ter realizado a edição no Anhembi, em São Paulo, acabou endividada e teve que dar um break para remodelar o negócio. A primeira atitude que tomou foi não se entregar ao fracasso.” Isto quer dizer que não valeu todos estes anos ou teria que repensar o modelo?”, questionou Adriana. “Na verdade, debutando, tínhamos atingido todas as metas que havíamos traçado em nossa missão. Então, era hora de repensar tudo: ter uma nova visão. Ficamos dois anos para fazer essa remodelagem até virar um Festival”.

Depois dessa virada, começaram a colher os frutos. Nos últimos cinco anos, já atendeu mais de 3 mil pessoas em todos os estados do Brasil e ampliou sua atuação para a América Latina para países como Bolívia e Colômbia.

Com a pandemia, os processos foram digitalizados, o que resultou em um ganho de escala. Além disso, tendo o domínio do território, acabou sendo a ponte para várias empresas que perceberam a necessidade de ajudar e apoiar as comunidades, mas que não tinham acesso e nem conhecimento logístico para chegar lá.

“Foi um trabalho conjunto de várias entidades que trabalham como o Movimento Negro. Aliás, uma das particularidades do movimento negro é o trabalho em rede. O movimento negro brasileiro é um dos movimentos mais antigos organizados. A própria Feira Preta é uma rede com mais de 600 empreendedores no Brasil todo”, detalha a empresária. “Quando se dá crédito ao movimento racial é sempre coletivo. Nunca é sobre uma pessoa, sempre sobre coletividade.”

Para o futuro, pensa que é necessário criar um sistema interligado mas não sobreposto. Na sua opinião, “talvez o que precisa agora é estabelecer um pensamento sistêmico. Eu sinto isso que há muitas organizações negras fazendo coisas muito parecidas, e aí vai para a disputa, para competição, para a busca do mesmo patrocínio. Confesso que isso é ruim, sendo que cada organização poderia atuar dentro de um tema específico e a gente colaborar umas com as outras.”

Se depender da força dela, com certeza, este será o caminho.

Quer saber mais? Ouça o episódio 18 do podcast “Somos Newa”:

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