A pessoa branca deve falar menos e ouvir mais

A humildade é uma das principais formas para que consigamos mudar o cenário de desigualdade social, de acordo com Geísa Mattos de Araújo Lima,  professora de sociologia no programa de pós-graduação da Universidade Federal do Ceará. 

No Brasil, os casos de homicídio de pessoas negras aumentaram 11,5% em uma década, de acordo com o Atlas da Violência 2020. Feito com base no Sistema de Informação sobre Mortalidade do Ministério da Saúde, o relatório evidencia ainda que, para cada pessoa não negra assassinada em 2018, 2,7 negros foram mortos, estes últimos representando 75,7% das vítimas. Enquanto a taxa de homicídio a cada 100 mil habitantes foi de 13,9 casos entre não negros, a atingida entre negros chegou a 37,8.  

Este é um dos cenários da desigualdade racial que a professora de sociologia no programa de pós-graduação da Universidade Federal do Ceará, GeÍsa Mattos de Araújo Lima, estuda sob o ponto de vista da branquitude.

“Se estas milhares de vidas perdidas por balas fossem de pessoas brancas haveria uma apatia da nossa população sobre crimes? Porque, por mais que nós sejamos pessoas brancas mostrando sua indignação, principalmente pelas redes sociais, fica por isso mesmo?  Uma coisa que gosto muito de fazer para pensar o impacto do racismo nas nossas vidas é sempre colocar a situação de modo invertido”, afirma a pesquisadora visitante no Programa Etnicidade, Raça e Migração na Universidade de Yale. “A autora Cida Bento, que estuda a branquitude aqui no Brasil, fala sobre o pacto narcísico da branquitude que é esta tendência em ser mais complacente com pessoas brancas.”

Segundo Maria Aparecida Silva Bento, diretora do Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades (CEERT), “o conceito de Branquitude refere-se à racialidade do branco, configurando uma visão de mundo, um posicionamento de vantagens calcado no silêncio e omissão (diante do racismo) por um lado, e, por outro, na prática discriminatória sistemática com vistas a conseguir e manter situações de privilégio que impregna a ação e o discurso; e que justifica / mantém / reproduz as desigualdades raciais no trabalho. 

Para a autora da tese de doutorado “Pactos narcísicos no racismo: branquitude e poder nas organizações empresariais e no poder público”: uma boa maneira de se compreender melhor a branquitude é entender a projeção do branco sobre o negro, nascida do medo e cercada de silêncio, fiel guardião dos privilégios. O que se vê comprometido nesse processo é a própria capacidade de identificação com o próximo, criando-se, desse modo, as bases de uma intolerância generalizada contra tudo o que se possa representar a diferença.

“É preciso que nós estejamos sob pressão para mudar a estrutura racista. Afinal, são mais de 300 anos produzindo uma estrutura que é herdada da escravidão. Como mudar isso se não for por pressão dos movimentos negros? Nós passamos muito tempo passando a mão na cabeça uns dos outros. Isto precisa acabar.”, enfatiza Geísa.

Com pós-doutorado no Programa de Pós-Graduação em Sociologia na Universidade da Cidade de Nova York, ela divide a branquitude em três tipologias: a branquitude acrítica, isto é, aqueles que são explicitamente racistas e se recusam a ver suas atitudes como um sintoma gravíssimo; o antirracista de fachada, ou seja, aqueles que até apoiam a “causa” desde que não mexa com seus privilégios e a branquitude consciente, aqueles que se engajam e estão dispostos a sair de sua zona de conforto para mudar essa situação mesmo ainda com limitações.

“O terceiro tipo, que é uma minoria, são pessoas jovens com grande atuação nas redes sociais. Elas não falam da branquitude como uma entidade abstrata da qual a própria pessoa não faz parte, mas fala a partir de suas experiências de vida trazendo como é que eu pratico e pratiquei o racismo na minha vida. Essa pessoa está autenticamente engajada no seu processo de construção, admite que está aprendendo e sabe que esta desconstrução é dolorosa e necessária”, comenta. 

Na sua opinião, a mudança só vem com humildade dos brancos reconhecerem o seu lugar de privilégio: “Isso é um aprendizado coletivo, é algo que vamos aprendendo juntos. A primeira coisa é ter humildade. Nós, brancos, costumamos viver em um lugar da autoridade, de poder, a ocupar espaço, falar com desenvoltura, trazer as nossas experiências como se fossem universais e válidas para todo mundo.”

Educação

Nem mesmo a academia está livre de aplicar este viés inconsciente. Segundo pesquisa do Quero Bolsa com os dados do Censo da Educação Superior de 2018, do total de docentes no ensino superior brasileiro, apenas 30,5% são negros.

“Muitas vezes, nós, professores de classe média brancos, trazemos para sala de aula a nossa própria perspectiva de vida que pode soar ofensiva para quem está ouvindo. 

A maioria dos estudantes da universidade pública é oriunda da periferia, por isso, nós temos que, primeiro, conhecer a realidade das pessoas para quem nós estamos falando, pois são diferentes das nossas.”

Segundo a pesquisadora Tatiana Dias Silva, autora do estudo sobre ação afirmativa e população negra na educação superior, publicado em agosto de 2020, pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), 36% dos jovens brancos naquela faixa etária estão estudando ou terminaram sua graduação. Entre pretos e pardos, esse percentual cai pela metade: 18%. A Meta 12 do Plano Nacional de Educação (Lei n° 13.005/2014) prevê que, até 2024, 33% da população de 18 a 24 anos estejam cursando ou concluindo a universidade.

Para conhecer melhor o perfil de seus estudantes, a professora da cadeira de sociologia nos cursos de Jornalismo e Publicidade, pede aos alunos que escrevam duas laudas de sua autobiografia, assim ela consegue ter um panorama das realidades enfrentadas por cada um. Recentemente, começou a dividir as histórias pessoais com todos.

“Geralmente a gente se coloca na posição de heroi, de vencedor das suas opressões ou de vítima. Temos de reconhecer que podemos ser oprimidos em relação a algum tipo de situação e opressor em relação a outros tipos de situações. Eu acredito que a gente se conecta com o coração do outro quando entendemos em algum momento, na nossa história, diferentes formas de opressão. Com isso,  derrubamos a imagem de herói infalível que todos nós temos em tempos de perfis fantasiosos no Instagram”, afirma Geísa.

Trabalho

No mundo corporativo, o cenário não muda muito. De acordo com um estudo do Instituto Ethos, nas 500 empresas de maior faturamento do país, apenas 6,3% das pessoas negras ocupam cargo de gerência e 4,7% fazem parte do quadro executivo.

Vejo os recentes programas de diversidade e inclusão nas empresas com otimismo, mas não tanto entusiasmo. Eu não  acredito nesse discurso caritativo, bonzinho, fofinho. Nós devemos praticar a inclusão porque beneficia toda a sociedade, inclusive as próprias pessoas brancas”, afirma. “Então, temos de estar preparados não só para incluir, mas para pensar que essas pessoas negras vão trazer questões nem sempre confortáveis e que a gente vai ter que lidar com isso. Acho importantíssimo que haja ações propositivas, acho que é indispensável. Mas por outro lado, nós, brancos, temos de ficar sempre cautelosos e prestando muita atenção no passo-a-passo para que a mudança realmente aconteça.”

Sem espaço nas empresas, muitos optam pelo empreendedorismo, principalmente as mulheres negras. Pesquisa do Instituto Locomotiva intitulada “Autonomia das Mulheres” aponta que empreender acaba sendo uma das únicas saídas para as mulheres negras. Há uma percepção majoritária de que mulheres têm mais dificuldades de inserção no mercado de trabalho formal do que homens, sobretudo entre as mulheres negras. Neste caso o índice chega a 51%.

“Muitas vezes o discurso do empreendedorismo coloca muita responsabilidade nas mãos das pessoas pobres e negras como se  fossem culpadas por não serem bem sucedidas. No entanto, o sistema verdadeiramente de justiça racial deve acompanhar esse grupo  de vendedores que estão fazendo todos os esforços, incentivar, apoiar dar reiteradas chances para que possam de fato evoluir e crescer financeiramente em termos econômicos tendo essa segurança financeira e alimentar que não temos no nosso país”, comenta a professora, Membro do Laboratório de Pesquisas em Política, Educação e Cidade (LEPEC/UFC).

Segundo o IBGE, o rendimento médio mensal da população branca é 73,9% maior do que o da população negra. Enquanto a média de rendimentos entre brancos é de R$ 2.796 por mês, para as pessoas negras, a média cai para R$ 1.608 mensais.

Quanto mais nós avançamos nas discussões sobre justiça racial, mais pensamos sobre desigualdade social. Por exemplo, somos cúmplices do racismo quando pagamos uma diária para nossas empregadas domésticas, o valor que a gente paga num só jantar. Então é importante que a gente tenha em mente esses parâmetros monetários porque o dinheiro faz diferença na vida das pessoas. É com ele que as pessoas mudam suas vidas”. E finaliza: “A  luta contra o racismo é uma luta que conecta muitas outras lutas. Então nada é separado quando estas pessoas vêm para  os ambientes brancos, trazem situações que, nós, brancos, não conhecemos e vamos ter que enfrentar, nos abrir a ela e vamos ter que mudar o nosso modo de vida sistemicamente . Voltando a humildade e isso implica em falar menos e ouvir mais.”