Entenda o que é economia púrpura que propõe uma visão alternativa para tratar o cuidado como um bem público e um direito humano básico. As atividades de cuidado recaem sobre as mulheres porque a lógica capitalista construída por longos tempos de patriarcado ainda está calcada na divisão sexual do trabalho que atribui aos homens a atividade produtiva, relativa à produção de mercadorias e bens de consumo – visível, pública, reconhecida, remunerada e às mulheres a atividade reprodutiva – invisível, privada, desprezada.
O que ainda é pouco discutido é como a economia reprodutiva sustenta a economia produtiva. E por isso precisamos falar sobre a economia púrpura (Purple Economic). O termo é antigo. Foi criado pela economista İpek İlkkaracan que propôs uma visão alternativa para tratar o cuidado como um bem público e um direito humano básico. Essas atividades recaem hoje sobre as mulheres, e não são incorporadas nem por quem emprega, nem pelo Estado e, tampouco, pelos homens no ambiente doméstico.
Isto porque a lógica capitalista construída por longos tempos de patriarcado ainda está calcada na divisão sexual do trabalho que atribui aos homens a atividade produtiva, relativa à produção de mercadorias e bens de consumo – visível, pública, reconhecida, remunerada. Às mulheres a atividade reprodutiva, relativa ao cuidado com as pessoas – invisível, privada, não reconhecida, não remunerada. Esta hierarquia corrobora para a manutenção da opressão do gênero feminino.
A entrada das mulheres no mercado de trabalho não mudou esse quadro. Ao contrário. Serviu para sobrecarregar ainda mais trazendo graves consequências a sua saúde física e mental. Isso sem contar na dificuldade de investir em sua própria carreira. E quem está no topo, o gap da divisão dos afazeres domésticos é ainda maior.
Entenda o que é a economia púrpura: relatório
Segundo o relatório Women in the Workplace 2022, da consultoria McKinsey, as mulheres em todos os níveis hierárquicos são responsáveis pela maior parte ou por todas as tarefas da casa e do cuidado de sua família. O desequilíbrio é especialmente acentuado entre homens e mulheres em cargos de liderança. Entre colaboradores em início de carreira, 58% das mulheres acumulam as funções contra 30% dos homens. Entre os cargos de liderança, a diferença quase dobra. Os índices são de 52% para as mulheres e 13% para os homens.
Para garantir os cuidados com casa, filhos, pais, as mulheres que têm recursos financeiros acabam por tercerizar e remunerar outras mulheres, explorando a mão de obra negra e imigrante. O ciclo vicioso persiste, pois essas funções são caracterizadas por baixos salários, cargas horárias excessivas e, não raro, condições de trabalho precárias.
Uma das saídas encontradas por empresas como Mercado Livre, Fleury e Meta é oferecer a possibilidade de congelamento de óvulos. De acordo com dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), o total de mulheres com 30 anos ou mais que se tornam mães no Brasil passou de 24% em 2000 para 38% em 2020 (4% são mães com 40 ou mais). Visto como um benefício, pode ser considerado um “purplewashing”, pois garante as empresas aproveitarem da mão de obra feminina em seu “auge” e forçando as mulheres a postergar uma vontade ou lutar contra seu relógio biológico.
O investimento na economia do cuidado é um investimento sustentável a longo prazo para as gerações presentes e futuras, só que carece de uma visão de justiça de gênero. É necessário evoluir para um modelo no qual mulheres e homens partilhem as responsabilidades cuidadoras e as empresas avancem em licenças parentais, horários flexíveis de trabalho e benefícios que suprem as necessidades das mulheres e homens em diferentes fases do ciclo de vida.
Sobre a Carine Roos
A profissional é especialista em Diversidade, Equidade e Inclusão há 10 anos. Ela é CEO e fundadora da Newa Consultoria, uma empresa de impacto social que prepara organizações para um futuro mais inclusivo por meio de sensibilizações, workshops, treinamentos e consultoria de diversidade. Mais de 12 mil pessoas foram impactadas em vivências com mais de três mil horas em salas de aula e mais de 2 mil mulheres mentoradas, que hoje estão mais seguras, mais estratégicas, mais reconectadas com a sua história e com a sua essência. À frente da Newa, Carine tem como missão preparar líderes para que a Diversidade e a Inclusão sejam uma realidade imediata nas organizações.
Artigo publicado em 24 de maio de 2023 no site Pra Carreiras



