Neste artigo exclusivo para a Revista HSM, a CEO e fundadora da Somos Newa, Carine Roos, convida o leitor a iniciar essa mudança pelo que chama de “ampliação da jornada da consciência” para a liderança, com inspiração nas descobertas de Otto Scharmer, do MIT.
Como cuidar do que é importante para nós, para as pessoas que nos relacionamos, e para o planeta em um momento com tantos desequilíbrios sociais, econômicos, políticos, ambientais e sanitários? Nesse momento que escrevo esse artigo recebo duas notícias diametralmente opostas: chegamos a 8 bilhões de pessoas no mundo e uma nova variante da Ômicron, BQ.1, já detectada em 65 países, incluindo o Brasil e com alta taxa de transmissão. Uma coisa não há dúvidas, como diz Albert Einstein, não podemos solucionar os problemas que possuímos com a mesma mentalidade na qual criamos. Vamos precisar desenvolver um pensamento sistêmico para lidar com os desafios globais que estamos passando. A começar por nós mesmos. A mudança é para dentro, mas também dos lados, e do todo. E são esses três passos da ampliação da jornada da consciência que proponho nesse artigo.
No livro “Liderar a partir do futuro que emerge”, o professor do MIT Otto Scharmer, apresenta a existência de três principais falhas geológicas que dizem respeito aos principais relacionamentos nos quais todos os seres humanos se envolvem:
(1) o nosso relacionamento com a natureza e o nosso planeta;
(2) os nossos relacionamentos uns com os outros;
(3) o nosso relacionamento conosco.
Scharmer nos conta que quando esses relacionamentos se fraturam, eles criam três divisores: Ecológico, Social e Espiritual-Cultural.
O Divisor Ecológico
De acordo com o relatório da Global Footprint Network, a humanidade necessita hoje de 1,5 planeta para manter seu padrão de consumo, colocando, com isso, a biocapacidade planetária em grande risco. Se essas tendências se mantiverem, nossa utilização excessiva atingirá um nível inimaginável de três planetas até 2050. “Fomos nos alienando desse organismo de que somos parte, a Terra, e passamos a pensar que ele é uma coisa e nós, outra: A Terra e a humanidade. Eu não percebo onde tem alguma coisa que não seja natureza. Tudo é natureza. O cosmos é natureza. Tudo que eu consigo pensar é natureza”, reflete Ailton Krenak em Ideias para adiar o fim do mundo.
O Divisor Socioeconômico
Em meio à pandemia da covid-19, os bilionários acumularam ainda mais dinheiro. De 1995 a 2021, o top 1% dos mais ricos ao redor do mundo deteve 38% do dinheiro global, enquanto os 50% mais pobres dividem apenas 2% dessa fortuna. Os dados são do estudo Desigualdade Mundial 2022, produzido pelo laboratório francês Thomas Piketty. Essa disparidade é uma de muitas que revelam o abismo socioeconômico que se aprofunda rapidamente.
O relatório Estado da Segurança Alimentar e Nutrição no Mundo 2022, lançado pela ONU, aponta que o número de pessoas afetadas pela fome em todo o mundo subiu para 828 milhões em 2021, uma alta de cerca de 46 milhões desde 2020 e 150 milhões desde o início da pandemia de Covid-19. Das pessoas que passam fome, 98% vivem em países em desenvolvimento.
Além disso, 1,3 bilhão de pessoas vivem na pobreza; grupos étnicos e mulheres são os mais afetados, revela o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). O mais recente relatório do Banco Mundial, Poverty and Shared Prosperity (Pobreza e Prosperidade Compartilhada) estima que a pandemia levou aproximadamente 70 milhões de pessoas à pobreza extrema em 2020, o maior aumento ocorrido em um ano desde o início de seu monitoramento global em 1990. Isso levou aproximadamente 719 milhões de pessoas a subsistirem com menos de US $2,15 por dia no final de 2020. Isso significa que as necessidades básicas dessas pessoas não são satisfeitas.
O Divisor espiritual-cultural
Embora os divisores ecológico e social se refiram à desconexão entre o eu e a natureza e entre o eu e o outro, o divisor espiritual-cultural diz respeito à desconexão entre o eu e o Eu, afirma Otto Scharmer.
Um sintoma dessa desconexão é o nosso nível de felicidade e bem-estar e questões relacionadas de estafa, depressão e suicídio. Atualmente, o Brasil é considerado o país mais ansioso do mundo e o quinto mais depressivo, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Esses três divisores que constituem a superfície dos sintomas são extremamente inter-relacionados.
Por exemplo, a perda de sentido da vida e do trabalho (o vazio interior) muitas vezes é preenchida por uma intensificação do consumo material (consumismo), que aprofunda o divisor ecológico exaurindo ainda mais os recursos. Por sua vez, a intensificação do fluxo de recursos naturais fluindo dos países em desenvolvimento para os países desenvolvidos e dos fluxos de dejetos que fluem no sentido contrário leva a um aprofundamento do divisor social.
Esses três desafios nos levam a refletir sobre de que forma queremos operar nesse mundo, desenvolver uma consciência sistêmica, saindo da lógica egossistêmica, isto é a conscientização centrada no ego, para a ecossistêmica (centrada na ideia de interdependência, cada ação que tomamos, afeta o sistema, o todo). Esse é o maior desafio dos líderes da atualidade e isso obviamente passa por uma reflexão profunda sobre o pensamento econômico predominante. Mas então qual é a chave para romper com essa lógica que nos desconecta da nossa essência e nos aliena enquanto humanidade e planeta? Seguem os três passos para apoiar lideranças na descolonização da narrativa predominante:
1) relacionar-se melhor consigo mesmo (EU-EU)
O autoconhecimento nos leva a uma reflexão profunda sobre o resgate da nossa história, a clareza sobre os nossos valores e sobre qual forma queremos operar no mundo, qual é o legado que eu quero deixar para essas e as próximas gerações? Eu não tenho dúvidas que a revolução se dará pelo resgate do afeto nas nossas relações.
O que nos faz felizes? Por 82 anos, pesquisadores da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, têm procurado essa resposta, é a pesquisa mais longa da história feita até o momento. O Estudo sobre o Desenvolvimento Adulto (Study of Adult Development) começou em 1938, analisando 700 rapazes – entre estudantes da renomada universidade e moradores de bairros pobres de Boston. A pesquisa acompanhou esses jovens durante toda a vida, monitorando seu estado mental, físico e emocional. O estudo continua agora com mais de mil homens e mulheres, filhos dos participantes originais. Robert Waldinger, o atual diretor do estudo, que tem a sua palestra no TED “O que torna uma vida boa?” Visto por mais de 45 milhões de visualizações, nos mostra muitas conclusões sobre o estudo, “mas o fundamental, que ouvimos uma vez ou outra, é que o importante para nos mantermos felizes e saudáveis ao longo da vida, é a qualidade dos nossos relacionamentos”. Ou seja, as pessoas mais satisfeitas com os seus relacionamentos, a profundidade dessas conexões, a relação com o nosso corpo e mente acabam permanecendo saudáveis por mais tempo, afirma o pesquisador.
E para isso acontecer, vamos precisar olhar para o nosso mundo interno, olhar a fundo para as nossas emoções, investigar a nossa base de dados emocional, termos maior consciência emocional, criarmos intimidade com o silêncio.
“A condição básica para sermos capazes de escutar o chamado da beleza — e responder a ele — é o silêncio. Se não temos silêncio dentro de nós mesmos — se nossas mentes e corpos estão repletos de barulho —, não somos capazes de ouvir o chamado da beleza. Existe uma rádio sempre ligada em nossa mente, a que eu chamo de “Estação PSP: Pensando Sem Parar”. Nossa mente vive repleta de ruídos, por isso não somos capazes de ouvir o chamado da vida, o chamado do amor. Nosso coração nos chama, mas não o escutamos. Não temos tempo para escutá-lo”, Thích Nhất Hạnh, monge budista, escritor e ativista dos Direitos Humanos.
É impossível exercermos uma liderança humana se estamos anestesiados das nossas emoções e do nosso corpo. Isso significa que as pausas, a qualidade do nosso sono, alimentação balanceada, prática de atividades físicas, o cultivo de uma mente saudável livre das aflições mentais é a chave para sermos líderes mais amorosos e compassivos.
Ainda, reconhecer que o individual também é político e o político também é individual. Ser político é, na essência, promover o bem estar de outras pessoas, não importa quem. Isso significa que nossas escolhas são sempre políticas porque podemos beneficiar ou prejudicar pessoas e a sociedade. O que você consome? Quais são as roupas que você veste? Qual é a origem do alimento que você consome? É pensar em ações intencionais diariamente todo dia desde que nos levantamos da cama.
Por fim, é entendermos qual é a minha posição social nesse mundo? O quão privilegiado eu sou por estar ocupando o lugar que hoje eu ocupo no cargo que estou exercendo? O rompimento da nossa bolha vem a partir do encontro com pessoas que estão nas margens, reconhecendo a nossa humanidade em comum.
2) relacionar-se melhor com os outros (EU-OUTRO)
A partir da minha mudança interna eu passo a desenvolver uma maior qualidade nas minhas relações, isso passa por uma escuta ativa e cuidadosa de todos os stakeholders.
Estamos vivendo uma disputa de narrativas, quem está certo e errado, quem possui a informação verdadeira, onde a aceitação da diversidade está perdendo campo e onde o desenvolvimento de competências como a empatia e compaixão são mais necessárias do que nunca. Segundo o fundador da Comunicação Não Violenta, Marshall Rosenberg, “quando, em uma organização, conseguimos conversar de maneira clara sobre necessidades e propósitos, é sinal de que o terreno das relações mudou e, portanto, os resultados mudam.” Para isso, ele elencou 4 atitudes que podemos tomar à luz da CNV. O objetivo é nos ajudar a sair do modo automático com que reagimos e como nos expressamos. Além de nos ajudar a nos conectar com nós mesmos, com o que nos importa e a contar para as outras pessoas sobre a nossa experiência, aumentando as chances de sermos compreendidos e de termos nossas necessidades atendidas, em harmonia com as necessidades dos outros. De forma simples, a Comunicação Não Violenta acontece a partir de um estímulo, da investigação de como nos sentimos e o que precisamos a partir daquele estímulo, e então, como podemos atuar com consciência.
O primeiro componente que devemos destacar é a observação que consiste em separar o que de fato aconteceu em uma situação e as avaliações que fazemos sobre ela. Uma observação é a descrição factual de algo que aconteceu. Os julgamentos e avaliações são parte da nossa experiência humana e muitas vezes atuam como mecanismos de defesa produzidos pelo cérebro que devemos ter consciência. Em seguida, é reconhecermos, nomearmos e expressarmos nossos sentimentos. Vale lembrar que não há sentimentos bons ou ruins como muitos de nós estamos acostumados a fazer. Na CNV, os sentimentos são mensageiros das nossas necessidades humanas universais.
Aí chegamos em um questionamento importante: qual necessidade está causando esse sentimento? Essa compreensão faz com que seja mais fácil, em uma conversa difícil por exemplo, buscarmos pelo que há de comum entre nós, nos conectando com a nossa humanidade compartilhada. Essa compreensão de necessidades para a CNV aumenta a nossa consciência de que o que a outra pessoa faz ou diz não é a causa do que sentimos. Pode ser o estímulo, mas nunca a causa. A causa do que sentimos está nas nossas necessidades. Se eu sinto raiva quando alguém me interrompe no meio de uma fala pode ser porque tenho necessidades de consideração e espaço. Se uma pessoa se sente triste quando está sozinha, pode ser porque ela tem necessidades de conexão, apoio, afeto. Os pedidos, último componente da CNV, são a expressão de como gostaríamos de atender nossas necessidades. Quando fazemos pedidos, damos ao outro a oportunidade de colaborar com o que é importante para nós. Um pedido na CNV é uma oportunidade que damos para a outra pessoa colaborar com nossas vidas, mas não queremos que ela faça isso às custas das próprias necessidades.
3) relacionar-se melhor com o sistema como um todo (EU-NATUREZA)
Mais do que nunca, as organizações que pretendem se manter inovadoras e responsáveis ética, política e ambientalmente, precisam imprimir uma verdadeira revolução na forma como impactam a sociedade de maneira mais consciente, olhando aspectos sobre como é feita a utilização de recursos naturais, como são descartados os resíduos do seu processo industrial, como é a emissão de gases na atmosfera, quais são eles e qual o nível de poluição produzida.
Outros fatores que podem ser observados ainda é se há desmatamento e reflorestamento, como é feito o uso da água, que tipo de energia é utilizada, como tratam colaboradores e toda a cadeia produtiva, como a organização trata os direitos humanos e a legislação trabalhista, se há transparência na divulgação de dados ou qual é o tipo de relacionamento que a organização possui com governos e políticos.
Para isso é necessário desenvolver uma nova mentalidade das lideranças alinhadas às práticas da nova economia, tratando concorrentes não como inimigos, mas com potencial de colaboração porque o foco é o impacto na sociedade.
Além disso, o desenvolvimento de uma cultura centrada em pessoas, nas suas necessidades e emoções, líderes que praticam a vulnerabilidade e reconhecem as suas limitações. Transparência com clientes, colaboradores e toda a sua cadeia, um compromisso ético e responsável com as cadeiras que ocupam usando esse poder para a transformação do mundo.
Dessa forma é crucial desenvolver lideranças conectadas às grandes demandas e desafios da nossa sociedade, isto é, mais conscientes sobre o seu papel no mundo e o seu impacto, a maior consciência sobre as suas emoções e como o cultivo da compaixão dentro das organizações podem ser a chave para ambientes mais saudáveis e humanos.
Sobre Carine Roos:
A profissional é especialista em Diversidade, Equidade e Inclusão há 10 anos. Ela é CEO e fundadora da Newa Consultoria, uma empresa de impacto social que prepara organizações para um futuro mais inclusivo por meio de sensibilizações, workshops, treinamentos e consultoria de diversidade. Mais de 12 mil pessoas foram impactadas em vivências com mais de três mil horas em salas de aula e mais de 2 mil mulheres mentoradas, que hoje estão mais seguras, mais estratégicas, mais reconectadas com a sua história e com a sua essência. À frente da Newa, Carine tem como missão preparar líderes para que a Diversidade e a Inclusão sejam uma realidade imediata nas organizações.
Artigo publicado na edição de maio de 2023 da Revista HSM Management



