Para incluir pessoas é preciso excluir o capacitismo

Este artigo, divulgado no Portal RH, conta com a participação de Carine Roos, CEO e fundadora da Newa, que mostra sobre como os jogos podem servir de exemplo para as empresas incluírem os PcDs e excluir o capacitismo.

No último dia 5, teve fim em Tóquio a 16ª edição dos Jogos Paralímpicos de Verão de 2020, as populares Paralimpíadas. O evento esportivo terminou com o histórico recorde de medalhas de ouro conquistadas pelo Brasil em uma edição, 22. No total, a delegação do país subiu ao pódio 72 vezes (além dos ouros, foram 20 medalhas de prata e 30 de bronze). Porém, as conquistas em relação aos Jogos não foram somente esportivas, mas educacionais, uma vez que, principalmente nas redes sociais, perfis pessoais e empresariais usaram suas contas para falar sobre a importância de combater o capacitismo, preconceito direcionado a pessoas com deficiência.

Em linhas gerais, de acordo com a psicóloga hospitalar Simone Queiroz, o capacitismo “é uma forma de descriminação que faz com que os indivíduos acreditem que os PcDs são incapazes”. A especialista pontua que a propagação de termos e estereótipos capacitistas é determinante para que esse público seja erroneamente visto como alguém que sempre precisa de ajuda, que não consegue ter independência e que, portanto, “é socialmente limitado para o convívio social e/ou profissional”.

Como saber se estou sendo capacitista?

Embora o combate ao preconceito contra pessoas com deficiência não seja, felizmente, um tópico que somente agora entrou em pauta, o conceito do capacitismo é relativamente recente e já integra em si as mudanças sociais que a sociedade vive nos últimos anos. Muitas das expressões consideradas capacitistas e que têm potencial destrutivo para o público PcD são frases costumeiramente usadas. 

“Usar, seja para discutir, achar que está fazendo uma brincadeira ou para falar sério, termos e expressões como ‘você é cego’, ‘seu retardado’, ‘coitado dele(a)’ – direcionado a PcDs -, ‘fingir demência’, ‘deu uma de joão-sem-braço’, ’parece autista’ e várias outras que envolvam algum tipo de deficiência, se enquadram no capacitismo. São frases que se popularizaram, mas que só enraízam o preconceito”, explica Simone.

A psicóloga esclarece também que mesmo que muitas pessoas acreditem que tais expressões sejam inocentes ou realmente não tenham a intenção de ofender, elas contribuem tanto para que, consciente ou inconscientemente, nós criemos visões pejorativas, preconceituosas e não condizentes com a realidade das pessoas com deficiência, como também para que esse público seja marginalizado.

“Muitas vezes quando você diz ‘coitado’ para demonstrar pena ou até mesmo ‘que bom que, apesar de tudo, você é capaz de sorrir ou de ser feliz’, para tentar mostrar empatia, você está limitando a pessoa à deficiência. E nós prendemos nossa mente na existência dessa limitação. Você não contrata porque acredita que a pessoa terá que ser supervisionada a todo instante. Você não se relaciona porque crê que será ‘babá’ da pessoa. Não há uma relação automática entre deficiência e dependência. Obviamente há casos específicos, mais delicados, mas não há um padrão. Se coloque no lugar de um atleta paralímpico que treina durante toda sua vida, é craque no que faz, referência em seu esporte, tem talento, disciplina e ainda precisa ouvir ‘quando penso em reclamar da vida, me lembro de como é a sua’. Alguém gostaria de ouvir isso? De ser tratado assim?”, questiona.

Preconceito presente no mercado de trabalho

Aniversariante recente, a Lei de Cotas (8321/91) completou 30 anos no final do mês de julho. Criada como uma garantia aos direitos das pessoas com deficiência no mercado, a lei cumpre seu papel como uma forma de garantir oportunidades ao público em questão, porém, os números ainda passam longe de representar um índice positivo de Diversidade & Inclusão. 

Atualmente, o Brasil possui mais de 45 milhões de habitantes que possuem algum tipo de deficiência. O número corresponde a 25% da população. Apesar disso, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o país conta com apenas 1% das vagas de empregos formais ocupadas por esses profissionais. Além disso, 47% dos espaços de trabalho destinados pela lei aos PcDs não estão ocupados.

“Um dos principais desafios para a contratação de pessoas com deficiência (PcDs) está ligado aos vieses inconscientes, os quais mantém tendências ou preconceitos levando em consideração julgamentos, pensamentos e ideias relacionadas à experiências passadas”, afirma Carine Roos, CEO e fundadora da Newa, consultoria especializada na capacitação de líderes e colaboradores que transforma as organizações por meio da Diversidade, Inclusão e Inovação.

Desde 1991, o país determina, por meio da Lei de Cotas, que as instituições com 100 ou mais colaboradores tenham de 2% a 5% PcDs em seu quadro de funcionários. A iniciativa, apesar de ter um cunho educativo e inclusivo, acaba por vezes não garantindo que esses colaboradores sejam incluídos de maneira adequada nas organizações. O reflexo disso pode ser visto no levantamento realizado pela Catho, portal de vagas de emprego, que revela que 34% dos portadores de deficiência empregados se sentem isolados nas empresas em que trabalham.

“Os Jogos Paralímpicos ensinam as empresas a olharem os candidatos sob uma nova ótica, sem capacitismo, sem discriminação, sem diferenças. Ensinam a olhar a partir de um viés que acolhe e oportuniza acima de qualquer coisa”, aponta a especialista em D&I.

Para Carine, é necessário ter um ambiente preparado não apenas no sentido de acessibilidade, com rampas, elevadores e espaços adaptados, mas, também, preparado no sentido de promover uma cultura que valorize as diferenças individuais. “É dever de todos mas, principalmente, dos C-levels e heads criarem uma cultura que respeite e estimule a inclusão de forma geral, com colaboradores que estejam abertos ao debate e entendam a importância de construir ambientes socialmente saudáveis para todos”, salienta.