Nem emprego, nem negócio: a dura realidade da população negra

O cenário econômico que vivemos neste momento de crise sanitária é bastante preocupante. O desemprego é de 14,4% e atinge 14,4 milhões, maior número desde 2012. Os índices da inflação continuam subindo e podem chegar a 8% este ano. Muitas pessoas têm partido para o empreendedorismo como forma de sobrevivência. Segundo dados do Ministério da Economia 3,359 milhões de empresas foram abertas no Brasil no ano passado e 1,044 milhão foram fechadas. Assim, o país registrou um saldo positivo de 2,315 milhões de novos negócios abertos no período.

Para a população negra, nem mesmo o número recorde de abertura de empresas desde o início da série histórica, em 2010, representa alívio. Estudo do Afro, assinado por Caio Jardim Souza, Gisele Silva Costa e Thayla Bicalho Bertolozzi, mostra que a taxa de desemprego dos negros subiu de 11,4% para 16,6%, enquanto entre brancos subiu de 9,17% para 11,5% entre maio e novembro de 2020. Segundo pesquisa do Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas, os negócios liderados por negros são mais recentes, com média de seis anos, e faturamento médio 39% inferior aos negócios liderados por brancos.

“Falando sobre mulheres e homens negros, essa parcela da população é a que mais sofre com o desemprego, a falta de acesso a oportunidades e ao crédito” afirma Fernanda Ribeiro, founder do grupo AFroBusiness e co-founder da Conta Black. “As empresas além da intencionalidade de querer atacar o problema da equidade social, devem ter boa vontade para agir conscientemente e criar processos e programas a longo prazo”.

Muitas empresas iniciaram a discussão da inclusão dos negros na onda do movimento “Vidas Negras Importam” que acabaram perdendo força. Agora, uma nova onda surgiu em cima das políticas de ESG ( Ambiente, Sustentabilidade e Governança). O mercado tem exigido ações mais contundentes como metas e prazos  fazendo com que as empresas voltem a discutir as questões raciais e diversidade de maneira geral.

Para Fernanda, “o grande “X da questão” a coisa mais importante quando a gente fala das empresas, é a gente pensar em intencionalidade. É preciso ter ações intencionais, ações afirmativas, para tentar equiparar essa realidade e, para fazer ações afirmativas e intencionais, de fato, é necessário destinar tempo, budget e metas. E, muitas vezes, as empresas optam por não fazer isso porque acaba mexendo nos custos e processos estruturais dentro da empresa. Mesmo tendo motivações próprias, acredito que movimentos como feitos pelo Magazine Luiza e Nubank  são movimentos legítimos, urgentes e servem para jogar luz nessa questão.”

A falta de uma política contínua dentro do ambiente corporativo acaba jogando o negro para o empreendedorismo que pode ser divididos em três tipos:

  1. O que não consegue emprego de nenhuma maneira e vai empreender de maneira formal e informal.
  2. O que está empregado mas não consegue ascender na empresa. Existe o chamado teto de vidro que não permite alcançar os postos de liderança. Neste caso, são altamente capacitados e acabam optando por empreender de maneira mais estruturada e formal.
  3. Os que empreende por natureza e atende um gap de mercado não contemplado como o da indústria de cosméticos.

O Afrobussiness nasceu há 5 anos para fazer com que estes empreendedores pudessem fazer negócios entre eles e hoje se tornou um hub de produtos financeiros e de produtos alocados em uma conta digital com a criação da Conta Black.

O objetivo era ajudar a manter a sustentabilidade do negócio, criando escala, capacitando empreendedores e otimizando as conexões. Em segundo momento, colocar o empreendimento dentro da cadeia de suprimentos de grandes empresas.

“Apenas com esta ação, se consegue aumentar lucratividade até 8 vezes. Por isso, é muito importante as empresas olharem para essa possibilidade como uma outra forma de inclusão”, aconselha Fernanda. “Se negócios gerenciados por pretos prosperam, geram impacto em todo o seu em torno, aumentando inclusive o número de empregos pois geralmente, eles contratam outros negros para trabalharem”.

Uma das barreiras encontradas foi a falta de crédito. Muitas destas empresas até se interessavam em comprar mas não adequavam os seus processos as peculiaridades do empreendedorismo negro. Muitas delas, têm prazo de pagamento de 180 dias o que inviabiliza as vendas. Isso sem falar que não tinham nem conta bancária para receber. De acordo com Instituto Locomotiva, no Brasil, o número de pessoas sem conta em banco chega a 45 milhões de pessoas, das quais 69% são negras em 2019.

“A Conta Black nasceu em 2018 para suprir esta necessidade. Ir ao banco foi sempre um martírio para a população negra. Já era barrada na porta giratória. Tinha de ter uma preparação até no tipo de vestuário e mesmo assim só encontrava obstáculos”, conta a co-fundadora. “E quando consegue falar com um gerente, a maioria é branca que diz não saber como o negócio prosperaria. Hoje, buscamos uma forma do nosso negócio, também,  se manter em pé, pois bancos digitais viraram a nova paleta mexicana tem um em cada esquina!”

O estudo do Sebrae confirma essa realidade: enquanto 55% dos empreendedores brancos tiverem crédito negado pelos bancos, essa porcentagem é de 61% no caso dos negros.

Quer saber mais? Escute o episódio do podcast “Somos Newa”,  com Fernanda Ribeiro, Founder do grupo AFroBusiness e CoFounder da Conta Black. Carine Roos conversa com ela sobre as diferenças de oportunidades entre negros e brancos, racismo estrutural e empreendedorismo negro.