“As redes sociais não foram criadas para serem bélicas ou machucar, mas estão fazendo isso”

Para a jornalista Soraia Lima, mestre em Ciências da Comunicação e doutora em Ciência da Informação pela ECA-USP, não existe fórmula mágica para o uso das redes sociais. Cada um deve buscar o que dá certo pessoal e profissionalmente levando em conta sempre a sua saúde física e mental.

Um estudo recente realizado pelas empresas WeAreSocial e Hootsuite mostra que o Brasil ficou em terceiro lugar no ranking de países que mais consumiram redes sociais em 2021. O brasileiro gastou, em média, cerca de 3 horas e 42 minutos por dia navegando pelas redes sociais no ano passado.

Que somos sociáveis nós sabemos. Para se ter uma ideia em termos de números, havia 165,3 milhões de usuários de internet no Brasil em janeiro deste ano. Dentre eles, 80% acessam aplicativos de comunidade. Os mais populares são o YouTube, Instagram, Facebook, TikTok e Pinterest.

Para Soraia Lima, jornalista, mestre em Ciências da Comunicação e doutora em Ciência da Informação pela ECA-USP, nossa relação com as redes sociais deve ir para o divã para uma profunda análise. “A primeira coisa que precisa entender é o que esta rede social pode lhe trazer de benefício, pois você é só um número para ela. E para você? Ela é importante do ponto de vista social ou profissional?” E completa: “Não há nada de errado em utilizar as redes sociais. Porém, elas não devem substituir ou prejudicar as relações interpessoais da vida real. Propõe-se para esse entendimento manter-se por inteiro no momento presente que, apesar de ser um desafio para o ser humano, pode ser feito no exercício diário do próprio relacionar-se.”

A troca de experiências e mensagens foi a base do nascimento da internet, inclusive. Na época da Guerra Fria (1947 – 1991) foi desenvolvida pelos norte-americanos com o intuito de se comunicarem com seu exército durante a guerra caso os meios de comunicação tradicionais da época fossem destruídos em ataques e descentralizar informações valiosas de forma que não fossem destruídas por bombardeios se estivessem localizadas em um único servidor.

Já a primeira rede social da história, a ClassMates.com, nasceu em 1995. Muito utilizado nos Estados Unidos e no Canadá, o site tinha layout bem simples e um objetivo definido: possibilitar reencontros entre amigos que estudaram juntos, seja no colégio ou na faculdade. O serviço era pago, porém conseguiu fazer sucesso e está online até hoje.

Ela lembra que na sua infância havia a possibilidade de trocar correspondências com outras pessoas pelo mundo, o chamado pen pal. “As mídias sociais quebraram as barreiras geográficas permitindo esta interação. Por outro lado, acabam nos oprimindo por diferentes frentes. Uma delas é a luta com o algoritmo que exige que você publique cada vez mais e do jeito dele. O Instagram, por exemplo, vai limitar a visualização dos stories apenas para os 3 primeiros e para ver o restante, deverá ir ao perfil de quem postou. Se sabe que quanto mais passos se colocam para os usuários, menos eles vão agir. Aí, começa a opressão. Por outro lado, vivemos no admirável mundo onde todo mundo é feliz, viaja, come bem e se você não está nessa sintonia, se sente inibido, infeliz. Tem essa positividade tóxica. Todo mundo é bem sucedido, ganha bem, tem melhores amigos, parceiros e isso é um peso muito grande para a gente. Queremos isso?”

Saúde mental – Comparações, pressão para postar, acompanhar tudo o que está acontecendo, ter contato com uma realidade que não é assim tão real, não dar conta de tanta informação e cobrança podem desencadear graves problemas de saúde mental. 

A atual gerente de projetos na agência Publicis passou por duas crises de burnout. A mais recente aconteceu quando recebeu um WhatsApp de um ex-chefe que pedia para que ela encostasse o seu carro numa das principais vias de São Paulo a fim de fazer uma postagem. “Foi um caso muito grave. Até hoje, tenho pavor de whatsapp. Uso como uma ferramenta de trabalho. Mas tem épocas que fico dias sem responder. As pessoas entram em completo desespero”, relata.

Estudo publicado na edição de maio da revista Cyberpsychology, Behavior and Social Networking mostrou que pedir as pessoas que parem de usar as mídias sociais por apenas uma semana pode levar a melhorias significativas em seu bem-estar reduzindo ansiedade e depressão.

A equipe de pesquisadores da Universidade de Bath (Reino Unido) descreve que o acesso às mídias sociais é tão onipresente que muitos de nós fazemos isso quase sem pensar desde o momento em que acordamos até quando fechamos os olhos à noite. A proposta da pesquisa era demonstrar que a pausa é benéfica para a saúde mental, além de provar que o mundo não vai acabar por causa desse distanciamento. 

Veja o caso de Soraia. Quando ficou grávida da filha Alice sofria de enjoo ao olhar para as telas e não postou por mais de um ano. Quando se sentiu apta para retomar –  afinal estar nas redes sociais é parte do seu trabalho – fez de maneira gradativa e planejada aderindo ao movimento slow content. 

“Assim passei a publicar o que queria, na hora que queria e está tudo bem. Pode não ser estratégico em termos de comunicação, mas é uma alternativa em termos de saúde mental. Senão, você vira refém de uma rede social”, relata. “ A gente tem de encontrar um ponto de equilíbrio do que é interessante para a gente pessoal e profissionalmente e o que as redes sociais desenham o que seja o ideal para elas. Por elas, passamos todos os dias o tempo todo conectados.”

Com mais de dez anos de experiência ministrando cursos de graduação e pós-graduação em instituições de Ensino Superior, como USP, FGV, ESPM, BSB, IPOG e Anhembi Morumbi, percebeu que para quem trabalha com redes sociais, o algoritmo obriga a postagem diária. Mas o algoritmo não consegue interferir na credibilidade de quem posta.

“Eu fiquei muitos meses sem postar e meu público não foi embora. Pelo contrário, cresceu. Não perdi seguidores pois quem estava me seguindo não era por moda. É o balanço correto entre quantidade versus qualidade. Nas redes sociais, não é o número de seguidores que importa, mas sim o conteúdo relevante. O slow content funciona com muita mais qualidade da postagem do que simplesmente uma quantidade de pessoas que te seguem, não comentam ou interagem. Aí fica postando por postar”, ensina.

Como profissional da área, afirma que não existe uma fórmula secreta, mas o que dá certo para cada um. Na pandemia, observou-se uma transição digital mandatória nas quais empresas e pessoas saíram em corrida desenfreada para abrir contas, fazer sites e mergulhar no digital de vez. “Nestes dois anos, tivemos de aprender na marra e muitos foram para o digital de maneira impulsiva. Quando se age impulsivamente, não se pensa nas consequências. Agora é hora de fazer uma análise de quais redes em termos de negócio é importante estar. Em todas elas? Se não tem pique para postar em todas, selecione”.

Como aprendizado básico, dá três dicas levando em conta que as redes sociais possuem públicos e posicionamentos diferentes:

  1. Não use a mesma arte e texto, com copy e paste, em todas as redes sociais. 
  2. Não é necessário postar em todas ao mesmo tempo. 
  3. Se não tiver vontade de publicar, não publique e está tudo bem.

Profissionalização – A contratação de um profissional de comunicação pode ser por meio de uma consultoria para desenvolver uma persona, um tom de voz, ensinar como escrever nas redes sociais. “Hoje, os maiores casos de gerenciamento de crise em redes sociais são de pessoas que não entendem como as redes sociais se comportam. Acreditamos que a web aceita tudo. Não é uma verdade. É duro entender que não é uma terra sem lei”, avalia. “O mundo digital criou um espaço para qualquer pessoa expor suas ideias e encontrar outras que também as defendam, sustentam e espalham. Não falo de censura, mas de educação. Vivemos uma era de analfabetismo digital funcional, ou seja, as pessoas têm acesso ao ambiente digital, mas não foram educadas para usar o potencial positivo dele. É como a questão nuclear. Ela não foi pensada como arma, mas foi usada como. As redes sociais estão neste patamar. Não foram criadas para serem bélicas ou machucar, mas estão fazendo isso.”

Exemplos do uso desastroso das redes sociais foram do CEO do Girafa’s quando publicou que “as pessoas estavam com medo da pandemia, mas não de perder o seu emprego” e do dono do Madero, “o que são seis mil vidas perdidas perto de uma economia falida?”

Para a professora, há uma linha que deve ser respeitada. “Tem certas coisas que não se publica. Publicar exatamente o que se pensa pode ter um reflexo no negócio e na imagem pessoal. Acho maravilhoso o movimento das empresas, colaboradores, porta-vozes de irem para as redes sociais falarem o que pensam, pois democratiza a informação, o papel da gestão, mas tem de ter responsabilidade no que se publica”, orienta. “Por isso, a importância do papel do profissional de comunicação que pode olhar, ver o que pode ocasionar problemas, aconselhar. Há alguns profissionais que cobram tão pouco pois trabalham com volume e não qualidade. Fazem aquelas postagens rasas que não acrescentam muito. O profissional vai ligar os objetivos de comunicação e de negócio e assim entra-se no mundo digital da maneira mais estratégica e assertiva possível.”

Nos modernos tratados de gestão, a missão e valores foram substituídos pelo propósito e posicionamento. Convidada para participar de evento de uma famosa rede varejista, há três anos, conta que ficou maravilhada com a diversidade apresentada com palestras de profissionais surda-muda, trans, negras e cadeirantes. O encanto terminou quando a pessoa que a convidou pediu que olhase para  a terceira fileira onde estavam os gerentes: todos eram homens, brancos e cis. 

“O propósito é considerado a alma da empresa. Ou seja, o discurso tem de estar alinhado à prática, senão, não reverbera. Hoje, as pessoas buscam cada vez mais a verdade e isso causa um impacto muito negativo. Temos de ter muita consciência sobre este posicionamento. Não estou obrigando as pessoas a contratar um profissional de comunicação, mas antes de postar qualquer coisa parar e pensar: por que é o que estou postando?”, diz  a ex-gerente de insights na Wunderman Thompson.

Um case bem-sucedido é o da Nike com a campanha chamada Dream Crazy estrelado pelo ex-quarterback do San Francisco 49ers, Colin Kaepernick, apoiando a sua iniciativa de ajoelhar durante o hino nacional americano para denunciar o racismo.

A relação política da campanha fez com que as ações da empresa caíssem 3% na Bolsa de Valores. Quatro dias depois, a Nike pôde acompanhar um crescimento recorde em suas vendas. Após quase uma semana de campanha, as vendas de produtos da empresa de Portland estavam alavancadas em 31%. “Se tem um custo, não dá para fechar os olhos sobre certas questões. Não é modismo, não é mimimi. É uma demanda da sociedade principalmente das novas gerações. Não é mais opcional. Tem de se fazer”, opina Soraia.

Falando em novas gerações, a tendência é se voltar cada vez mais para perto da realidade visto que a rede que está fazendo mais sucesso agora é BeReal que quebra a lógica de busca por likes fazendo que pessoas tirem fotos comuns e mais realistas, muitas vezes, pouco ou nada glamurosas. A feature funciona assim: no momento em que o usuário recebe a notificação, ele tem até dois minutos para capturar uma imagem que é feita simultaneamente com a câmera frontal e a de trás. Ele pode até postar uma foto “atrasado”, mas não conseguirá ver as postagens dos amigos até que tenha feito uma.

“É uma febre entre os mais jovens. Um movimento em busca da realidade. As novas gerações não veem mais a necessidade de ficar jogando informações o tempo todo para todo mundo. Fazem grupos fechados e publicam para os amigos mais próximos. Por isso que nascem algumas funcionalidades nas redes sociais”.  E pondera: “Será que para eles isso vai ser um problema? Acho que  as coisas que postamos hoje não farão mais sentido no futuro. Estudos mostram que precisamos de algo mais próximo da realidade, mas não sabemos se será assim mesmo. É um problema para o futuro. O que sei é que no presente estamos meio cansados de tantas publicações e obrigações.”

No episódio 54 do podcast da Newa você pode saber mais sobre “Como as redes sociais afetam a vida além das telas”.

Soraia Lima é jornalista, mestre em Ciências da Comunicação e doutora em Ciência da Informação pela ECA-USP. Ela possui mais de dez anos de experiência ministrando cursos de graduação e pós-graduação em instituições de Ensino Superior, como USP, FGV, ESPM, BSB, IPOG e Anhembi Morumbi. 

Além da experiência acadêmica, já atuou como gerente de insights na Wunderman Thompson, coordenadora de comunicação digital no Grupo Printer, community manager do Scup, repórter e redatora na Editora Aranda e assessora de imprensa no SIEEESP. Atualmente, é gerente de projetos na Publicis.